14 Janeiro 2009

O peso e a leveza



Es muß sein
Para Parmênides, o universo está divido em pares de contrários: a luz/a escuridão; o grosso/o fino; o quente/o frio; o ser/o não-ser. Segundo ele, um dos polos da contradição é positivo (o claro, o quente, o fino, o ser) e o outro, negativo. Essa divisão em polos positivo e negativo pode nos parecer de uma facilidade pueril. Exceto em um dos casos: o que é positivo, o peso ou a leveza?

Parmênides respondia: o leve é positivo, o pesado é negativo. Teria ele razão?

(...)

Um certo sr. Dembscher devia cinqüenta florins a Beethoven e o compositor, que vivia sempre sem um tostão, foi cobrar dele. "Muß es sein? Tem que ser assim?", suspirou o pobre sr. Dembscher, e Beethoven respondeu com um sorriso: "Es muß sein! Tem que ser assim!". Depois anotou essas palavras com sua melodia em seu caderno de apontamentos e compôs com esse motivo realista uma pequena peça para quatro vozes: três vozes cantam "es muß sein, ja, ja, ja". "tem que ser assim, sim, sim, sim", e a quarta voz acrescenta "heraus mit dem Beutel!", "abra sua bolsa!".

O mesmo motivo se tornou, um ano mais tarde, o núcleo do quarto movimento do último quarteto de Beethoven. Ele já não pensava na bolsa de Dembscher. As palavras "es muß sein!" iam assumindo para ele uma tonalidade cada vez mais solene, como se o próprio destino as tivesse pronunciado. Na língua de Kant, mesmo a expressão "bom dia!", devidamente articulada, pode parecer uma tese metafísica. O alemão é uma língua de palavras pesadas. "Es muß sein!" não era mais uma brincadeira, mas "der schwer gefaßte Entschluß", a decisão gravemente pesada.

Beethoven transformara, portanto, uma inspiração cômica num quarteto sério, uma brincadeira em verdade metafísica. É um exemplo interessante da passagem do leve para o pesado. Essa mutação não nos surpreende, mas ficaríamos indignados se Beethoven tivesse passado do tom sério de seu quarteto à brincadeira leve do cânone a quatro vozes sobre a bolsa de Dembscher. No entanto, estaria agindo inteiramente de acordo com o pensamento de Parmênides: do pesado ao leve, portanto, do negativo ao positivo! No começo haveria, sob a forma de esboço imperfeito, uma grande verdade metafísica e no fim, como obra terminada, a mais leve das brincadeiras.

Só que não sabemos mais pensar como Parmênides.

(Milan Kundera, A Insustentável Leveza do Ser)


5 comentários:
Aline disse...

Já conhecia esse texto, um professor nos recomendou na faculdade. Muito bom!
Beijos

Aline disse...

Já conhecia esse texto, um professor recomendou na faculdade. Ai...saudades!

Guilherme Bandeira disse...

Muito maneiro, não conhecia../

www.olhaquemaneiro.com.br

Antonoly disse...

Bem interessante e diferente esse texto, voltarei para ler com mais calma uma outra ocasião.

Marco Antonio disse...

Estou lendo pela terceira vez pra ver se fico menos confuso. O leve para o pesado, positivo, negativo... ai ai

Minha cabeça ainda não conseguiu alcançar isso...

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