Abril 28, 2007
Se não rimar, não é poema
Lá estou eu de novo analisando tudo ao redor enquanto minhas pernas me levam embora. Os carros não dão passagem, eu espero para cruzar uma das quatro ruas que me separam de casa. Ultimamente tenho pensado muito que tudo na vida é uma questão de esperar. Estamos sempre esperando alguma coisa. É como se o agora fosse insuportável de ser vivido, mesmo sendo tão efêmero. Durmo esperando o despertador. Vou à aula esperando a hora do almoço, de ir pro trabalho, de voltar para casa. Espero alguém chegar, espero o tempo passar. Passa, tempo... Quero ir pra longe daqui.
Quero ver coisas diferentes, mas é como se esse caminho estivesse gravado em mim. Tudo sempre igual. Falta pouco para chegar em casa e terminar outro dia. Falta pouco para começar tudo de novo. Me vem novamente a idéia de que não penso mais. Apenas faço o que devo, no questions asked. Quando será que parei de pensar? Fui sendo levada para um caminho que não tenho certeza que escolhi, nem sei se posso sair.
Tem que ser assim? Quando é tarde demais? Seria melhor se tivesse coragem suficiente para fugir de tudo que não é certo, só para que as coisas fossem do jeito que escolhi? Só para dizer "cheguei até aqui", em vez de "me trouxeram"? Até que ponto eu sou eu e até que ponto eu sou os outros?
Às vezes precisamos tomar decisões para recuperar o que achamos ser nossa rota.
Desde criança elaboro uma lista imaginária de coisas que nunca entendi para pedir que Deus me explique. Com o único intuito de satisfazer uma curiosidade tola, porque onde quer que eu vá respostas não farão diferença. Mas hoje eu gostaria de tê-las. Uma pergunta pode ser mais importante do que qualquer resposta, dizia Sócrates. Mas quem disse que ele estava certo?
Sócrates morreu pelo que acreditava. Jesus morreu pelo que acreditava. Quantos não preferiram se retratar? Édipo furou os próprios olhos porque não queria ver o espetáculo medonho que seu destino lhe reservou.
Se soubéssemos o desenrolar de nossas vidas, escolheríamos vivê-las?
A preguiça ao chegar em casa ofusca os pensamentos. Chegou a hora de parar. Assiste tevê e pensa que não é você, esquece da sua vida, deixa pra lá. Como será ser outra pessoa? É inevitável: uma hora voltaremos a ser nós mesmos.
Abril 17, 2007
Niétotchka Niezvânova
Niétotchka Niezvânova pode não estar na lista dos livros mais conhecidos de Dostoiévski, como "Crime e Castigo", "O Idiota" e "Os Irmãos Karamazov", mas certamente tem o seu brilho. Era o romance que o autor estava escrevendo quando foi preso e condenado à morte. No último minuto, sua pena foi comutada para quatro anos de trabalhos forçados na Sibéria, onde acabou passando dez, retratados em "Recordações da casa dos mortos".
A que tudo indica, Niétotchka Niezvânova estava destinada a ser uma grande obra, mas as intenções de Dostoiévski já eram outras após sua punição. É impressionante ver um romance familiar tão bem estruturado, até mesmo antecipando alguns aspectos da teoria freudiana (a menina apaixonada pelo padrasto, que acredita ser seu pai) e cuidando de assuntos polêmicos, como o erotismo infantil e a atração homossexual, numa literatura que era até então muito pudica. Infelizmente, o livro deixa um gostinho de quero mais, terminando abruptamente e deixando muita coisa no ar.
De qualquer jeito, o que me marcou mais nessa primeira leitura do livro foi a postura do padrasto de Niétotchka, um homem chamado Iegor Iefimov. Sem entrar em detalhes, Iegor era um violinista fracassado, mas que acreditava piamente ser um grande músico. Por isso, não subestimava sua arte tocando em pequenos bailes ou concertos. Casou-se com a mãe de Niétotchka e os três viviam na miséria. Porém, sempre que algum grande violinista vinha à cidade, Iegor dava um jeito de assisti-lo para pôr defeitos na sua performance.
Enfim, tinha uma auto-estima inabalável, o que acabou custando-lhe a vida. Ao finalmente cair em si e perceber que não passava de um músico medíocre, enlouqueceu e, logo depois, morreu:
"Morreu porque tal morte era uma necessidade, uma conseqüência natural de toda a sua vida. Devia morrer assim, quando tudo o que o amparara na vida ruíra de vez, dissipando-se como um espectro, um sonho etéreo e vão. Morreu quando se foi a sua última esperança, quando, de repente, sua fantasia desmoronou, e ele teve a nítida consciência de tudo aquilo com que se iludira e em que se apoiara durante toda a existência. A verdade cegou-o com seu brilho intolerável.
(...)
Aconteceu, de súbito, aquilo que ele aguardara a vida inteira, trêmulo, o coração opresso. Parecia que, durante toda a sua vida, um machado estivera suspenso sobre a sua cabeça, toda a vida ele esperara, a cada momento, numa tortura inimaginável, que a lâmina o golpeasse; e eis que, finalmente, o golpeava! Foi um golpe mortal. E ele, que desejara fugir ao tribunal da própria consciência, não tivera para onde fugir: desaparecera a última esperança, perdera-se o derradeiro pretexto.
(...)
Naquele momento, a loucura, que o espreitara durante dez anos, atingiu-o inexoravelmente".
Abril 07, 2007
V.
Babaca. Ele era um babaca. Provavelmente ainda é. Quando paro para pensar em todas aquelas histórias patéticas que ele contava, me acomete aquela sensação mista de pena e raiva. Ora gabando-se de suas assim chamadas proezas, ora choramingando de vexames ridículos... V. devia era envergonhar-se da própria existência.
Lembro-me bem do entusiasmo com que V. falava, mas lembro principalmente a dificuldade que era compreender o porquê. Mais de uma vez foi só a compaixão que me fez ficar. Hoje é impossível não pensar sem um sorriso malicioso subir à face nas vezes em que ele corria para se esconder quando sentia as lágrimas precipitando-lhe. Não me entenda mal, é no mínimo satisfatório lembrar dos momentos de fraqueza de um ser que se pensava imbatível. Momentos estes que eram, segundo V., invariavelmente culpa minha.
Devo admitir, porém, que, se lhe faltavam qualidades, tinha esta habilidade bem desenvolvida: a atribuição de culpa. V. a tinha tão bem trabalhada que me fez, quando não por piedade, ficar por culpa. A esta altura já me devia estar claro que esse sentimento manipulador que ele nutria por mim não podia ser amor. Eu era ingênua... se há um motivo apenas para não me arrepender de todo o tempo que passei com ele, há apenas um: a lição aprendida.
Seria injusto não mencionar uma coisa boa entre mim e V., por isso escolhi a melhor: o fim. Depois disso, ainda o vi raras vezes, a agir do mesmo modo costumeiro, e irradiava por não ser mais eu a aturá-lo. Confesso, alguns meses atrás V. me escreveu uma carta, a qual assinava carinhosamente e implorava por resposta, só não mais que implorava pela minha volta, nas palavras dele. Não respondi, mas a queimei. Uma pena... tivesse guardado no meio de um livro velho e a encontrasse anos depois, quando V. não fosse mais que uma sombra, renderia mais alguns sorrisos desdenhosos.
Abril 04, 2007
Presente de Aniversário
Parece mais presente de grego!
Creio que vocês já repararam no novo template, não? Para falar a verdade, ainda não estou certa se gosto de todo esse estilo clean, até porque gostava muito mesmo das minhas matrioshkas, mas o tempo passa e nós precisamos mudar. Foram sete meses inteiros só com elas, e agora temos variadas opções de figuras! Para ver, aperte F5.
Confesso que a idéia inicial era fazer algo parecido com aquelas máquinas de slots, o joguinho de cassino. Devido a minha criatividade, minha capacidade e meu conhecimento no assunto, todos limitados, esse é o melhor resultado que se podia esperar. Até que gostei... e vocês?
















