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Outubro 30, 2006

Enjôo

Enjoei. Enjoei de orkut, enjoei de blog, enjoei de msn e de fotolog. Cansei de pessoas procurando coisas na minha vida e lendo o que eu não tenho muita certeza, no momento, que gostaria que fosse sabido. Eu sei que, por mais que eu reclame, o vício ainda pesará mais que a privacidade, por isso meu perfil se reduz a três linhas, meu fotolog foi apagado e meu blog está às moscas. A maioria das pessoas que aqui visitam não sabe sequer meu nome, quanto mais meu sobrenome, que não está escrito em lugar algum. Uma manha aprendida à marra com os blogs antigos, para evitar ferramentas de busca. Não é superexposição porque ainda não chegou a essas proporções, mas incomoda e será evitada ao máximo.

Também cansei das pessoas. Cansei das pessoas que sentem necessidade de se afirmar no mundo da internet, onde todo mundo pode ser qualquer um, pode ser quem quiser, pode parecer qualquer coisa. E a idéia é exatamente essa, criar uma personalidade real a partir do mundo virtual. Um modelo falso. Me aborrece essa disputa de quem tem mais scrap, mais amigos, mais visitas no blog. Mas me aborrece ainda mais ver que isto é levado em conta. Antes fossem casos isolados de pessoas com pouca auto-estima. O problema é que muitos acreditam. Acreditam que é importante! Rousseau dizia que o verdadeiro fundador da sociedade civil foi o primeiro que cercou um pedaço de terra, disse "Isto é meu!" e encontrou pessoas tolas o suficiente para acreditá-lo. No fim das contas, tudo se resume a acreditar.

Cansei dos seres não-pensantes. Daqueles que escutam ou lêem (raro) uma opinião, tomam partido e saem vomitando como causa própria, sem ao menos questionar. Durante as eleições, esses tipos ferveram em borbotões. Eu sou apartidária, mas fiquei boquiaberta com as razões que indivíduos da classe mais privilegiada costumam dar para justificar seu voto, razões estas que pululam em enorme quantidade em scrapbooks e fotologs por aí:

"meu maior motivo para votar no geraldo...é o concorrente dele
eu tenho vergonha do Lula
onde ja se viu um presidente que nao sabe nem falar, que nao tem modos, que nao entende nada de politica, que tudo o que fez antes de ser eleito foi farra e baderna nas multinacionais com as suas importantissimas greves, isso com ctz fez o brasil melhorar mto... =/
ele nao fez o Brasil melhorar em nd, crescer em nada... abriu as pernas pra Bolivia...com relaçao a petrobras, falam tanto do medo da privatizaçao da petrobras, mas se fosse privatizada provavlemente esse problema ja teria sido reslvido e nós nao seriamos prejudicados
um cara que chegou na presidencia com menos estudos que eu
que tem a mulher (primeira dama) que nunca abriu a boca durante os 4 anos de governo, e nao fez nenhuma açao social, diferente da sua filha que formou uma ong... organizaçao nao governamental... com a ajuda do governo, eu juro q acho q aprendi na escola q nao era bem assim q deveria ser,lavagem de dinheiro e corrupçao dos amigos dele"
[sic]

Já nem me dou ao trabalho de responder, explicar ou refutar. Também cansou... Estou farta de ver povinho dizer que brasileiro tem o governo que merece, pejorativamente, como se ele fosse de alguma raça superior, usando a frase do filósofo francês Joseph De Maistre, crítico da Revolução Francesa, inimigo das repúblicas e defensor das monarquias e do papa...

Vejo gente dizendo que tem vergonha de ser brasileiro. Mas não vejo muita gente fazendo algo de concreto para mudar o país. Reclamar é fácil. Achar um culpado é fácil. A história só se repete se não aprendemos com ela.

"A história só se repete como farsa".

Outubro 13, 2006

Aos 19

Estou quase nos meus dezenove anos. É pouco? É muito? Depende do ponto de vista... Deixei de fazer muitas coisas e olhando para trás gostaria de tê-las feito, mas fiz outras tantas das quais me orgulho. Nada é tão bom como gostaríamos ou imaginamos, por isso é melhor não criar expectativas. Estou feliz aqui aonde cheguei.

Ultimamente vem batendo mais forte aquela vontade de deixar tudo para depois e ir viajar. E, em conseqüência, vem o medo do novo, da saudade e das mudanças quando eu voltar. Gosto muito do modo como as coisas estão... e aí penso: vou quando acabar a faculdade. Mas nunca se sabe o que vai mudar até lá, talvez surja algo que me faça alterar os planos e ficar, como agora. E assim vai a bola de neve.

E enquanto estou por aqui, vejo tantas coisas que podia estar fazendo e não estou: estudos, estágio, exercícios. É difícil equilibrar a vida pessoal e social com a vida intelectual (e, por que não?, com a preguiça) e eu com certeza não estou fazendo um bom trabalho nesse aspecto. O lado perfeccionista reclama às vezes, mas me contento com um "faço o melhor que sou capaz, só para viver em paz", apesar de ter algumas dúvidas sobre a veracidade disso.

Porém, de tanto pensar na vida, nas pessoas, nas vontades e nas obrigações... eu sempre acabo lembrando que, no fim, pouca coisa é realmente importante. E tudo segue, um dia após o outro, mais ou menos igual...

"Levo a vida devagar para não faltar amor...."

Outubro 06, 2006

Questão de cultura?

Um brasileiro inventou o avião e suicidou-se ao ver seu sonho transformado em pesadelo.

Uma semana atrás, um Boeing 737-800, com menos de duzentas horas de vôo, caiu na região norte do Mato Grosso, quase fronteira com o Pará, matando todas as cento e cinqüenta e quatro pessoas a bordo. O vôo 1907 da Gol saiu de Manaus com destino à Brasília.

A causa da queda parece ter sido uma colisão com um Legacy N600L, um jatinho executivo fabricado pela Embraer e recém adquirido pela empresa estadunidense ExcelAire Services, que decolou de São José dos Campos em direção aos Estados Unidos. Além do piloto e do co-piloto, Joseph Lepore e Jan Paul Paladino, a aeronave transportava outras cinco pessoas: dois sócios da ExcelAire, dois funcionários da Embraer e um jornalista do New York Times, Joseph Sharkey. O Legacy fez um pouso emergencial e ninguém ficou ferido.

O que todos se perguntam é como duas aeronaves novas, que possuíam sistemas anticolisão até com aparelho reserva, simplesmente se chocaram a onze quilômetros de altitude. Ambas as aeronaves estavam na mesma altura, 37 mil pés, enquanto que, segundo o plano de vôo, o jato deveria ter baixado para 36 mil pés.

Testemunha é o jornalista do NYT. Sharkey escreve em sua coluna que, minutos antes do choque, visitou a cabine do piloto e reparou no mostrador de altitude. Porém, em entrevista à rede de televisão CNN, fez diversas críticas ao país: declarou que o controle aéreo do Brasil é péssimo e que os pilotos do jato, cujos passaportes foram retidos, correm "algum tipo de perigo". Um depoimento lamentável e uma conduta típica de um povo que só enxerga o próprio umbigo. Enquanto o Brasil se angustia diante do pior desastre aéreo da sua história, os Estados Unidos se preocupam apenas em salvar seus pilotos das garras desse país de terceiro mundo...

Até agora, apenas vinte e nove corpos foram identificados. Os dois primeiros corpos encontrados - de um homem e de uma mulher - estavam a meio metro de profundidade, "grudados" no solo...

Eu não me admiraria se esta tragédia totalmente evitável tenha sido causada pela negligência e imprudência de pilotos confiantes demais, uma vez que Lepore e Paladino são suspeitos de desligarem o transponder, aparelho que identifica o avião no radar com precisão, para "testar" a nova aeronave.

Tempos atrás, um avião chocou-se com uma montanha no Japão, matando mais de quinhentas pessoas. Milagrosamente, quatro mulheres sobreviveram. Acabou se descobrindo que a causa do acidente era um reparo mal-feito de uma avaria sofrida na parte traseira da aeronave sete anos antes. O mecânico, em vez de pôr duas fileiras de rebite, pôs apenas uma. Ao saber o que tinha provocado, suicidou-se...

Eu pergunto: se, ao término das investigações sobre o acidente da Gol, os pilotos estadunidenses forem culpados, qual será a postura deles sabendo que provocaram tantas mortes e tendo que viver com isso para o resto de suas vidas..?

Outubro 01, 2006

Dispersões de London

Então sentou-se para escrever algumas linhas. Abaixou a música, mas no fim desligou o som. Silêncio. E foi assim, depois disso. Num ímpeto tudo surgiu muito lógico e óbvio, porém não passível de explicação. Descobriu que aonde ia era o lugar de onde acabara de sair. Ironicamente, era onde estava agora. Desistiu de fazer qualquer coisa. Estava também cansado. Acendeu um cigarro. Apagou as luzes. Sentado em sua bergère, examinou a memória na busca por algo implícito. Afinal, o que acontecera? Já eram onze horas daquela sexta molhada. Ah! Onze horas... Adormeceu.

Subitamente, doze badaladas. Deviam ser doze, afinal. Contou apenas quatro. Levantou e foi até o espelho. Sentia-se cruel e infeliz, vítima de sua própria ruindade. Praguejou. Então sentou-se novamente à maquina. Mas não escreveu. Sabia que desejava exatamente tudo que acabara de desistir de ter, e riu sarcasticamente. Seus olhos estavam cheios de perversidade.

E foi aí. Pegou o telefone e discou.


(21/05/04)