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Junho 23, 2006

Bandeira Branca

Ele: tirolês. Ela: odalisca; Eram de culturas muito diferentes, não podia dar certo. Mas tinham só quatro anos e se entenderam. No mundo dos quatro anos todos se entendem, de um jeito ou de outro. Em vez de dançarem, pularem e entrarem no cordão, resistiram a todos os apelos desesperados das mães e ficaram sentados no chão, fazendo um montinho de confete, serpentina e poeira, até serem arrastados para casa, sob ameaças de jamais serem levados a outro baile de Carnaval.

Encontraram-se de novo no baile infantil do clube, no ano seguinte. Ele com o mesmo tirolês, agora apertado nos fundilhos, ela de egípcia. Tentaram recomeçar o montinho, mas dessa vez as mães reagiram e os dois foram obrigados a dançar, pular e entrar no cordão, sob ameaça de levarem uns tapas. Passaram o tempo todo de mãos dadas.

Só no terceiro Carnaval se falaram.

- Como é teu nome?

- Janice. E o teu?

- Píndaro.

- O quê?!

- Píndaro.

- Que nome!

Ele de legionário romano, ela de índia americana.

Só no sétimo baile (pirata, chinesa) desvendaram o mistério de só se encontrarem no Carnaval e nunca se encontrarem no clube, no resto do ano. Ela morava no interior, vinha visitar uma tia no Carnaval, a tia é que era sócia.

- Ah.

Foi o ano em que ele preferiu ficar com a sua turma tentando encher a boca das meninas de confete, e ela ficou na mesa, brigando com a mãe, se recusando a brincar, o queixo enterrado na gola alta do vestido de imperadora. Mas quase no fim do baile, na hora do Bandeira Branca, ele veio e a puxou pelo braço, e os dois foram para o meio do salão, abraçados. E, quando se despediram, ela o beijou na face, disse -Até o Carnaval que vem- e saiu correndo.

No baile do ano em que fizeram 13 anos, pela primeira vez as fantasias dos dois combinaram. Toureiro e bailarina espanhola. Formavam um casal! Beijaram-se muito, quando as mães não estavam olhando. Até na boca. Na hora da despedida, ele pediu:

- Me dá alguma coisa.

- O quê?

- Qualquer coisa.

- O leque.

O leque da bailarina. Ela diria para a mãe que o tinha perdido no salão.

***

No ano seguinte, ela não apareceu no baile. Ele ficou o tempo todo à procura, um havaiano desconsolado. Não sabia nem como perguntar por ela. Não conhecia a tal tia. Passara um ano inteiro pensando nela, às vezes tirando o leque do seu esconderijo para cheirá-lo, antegozando o momento de encontrá-la outra vez no baile. E ela não apareceu. Marcelão, o mau elemento da sua turma, tinha levado gim para misturar com o guaraná. Ele bebeu demais. Teve que ser carregado para casa. Acordou na sua cama sem lençol, que estava sendo lavado. O que acontecera?

- Você vomitou a alma - disse a mãe.

Era exatamente como se sentia. Como alguém que vomitara a alma e nunca a teria de volta. Nunca. Nem o leque tinha mais o cheiro dela.

Mas, no ano seguinte, ele foi ao baile dos adultos no clube - e lá estava ela! Quinze anos. Uma moça. Peitos, tudo. Uma fantasia indefinida.

- Sei lá. Bávara tropical - disse ela, rindo.

Estava diferente. Não era só o corpo. Menos tímida, o riso mais alto. Contou que faltara no ano anterior porque a avó morrera, logo no Carnaval.

- E aquela bailarina espanhola?

- Nem me fala. E o toureiro?

- Aposentado.

A fantasia dele era de nada. Camisa florida, bermuda, finalmente um brasileiro. Ela estava com um grupo. Primos, amigos dos primos. Todos vagamente bávaros. Quando ela o apresentou ao grupo, alguém disse -Píndaro?!- e todos caíram na risada. Ele viu que ela estava rindo também. Deu uma desculpa e afastou-se. Foi procurar o Marcelão. O Marcelão anunciara que levaria várias garrafas presas nas pernas, escondidas sob as calças da fantasia de sultão. O Marcelão tinha o que ele precisava para encher o buraco deixado pela alma. Quinze anos, pensou ele, e já estou perdendo todas as ilusões da vida, começando pelo Carnaval. Não devo chegar aos 30, pelo menos não inteiro. Passou todo o baile encostado numa coluna adornada, bebendo o guaraná clandestino do Marcelão, vendo ela passar abraçada com uma sucessão de primos e amigos de primos, principalmente um halterofilista, certamente burro, talvez até criminoso, que reduzira sua fantasia a um par de calças curtas de couro. Pensou em dizer alguma coisa, mas só o que lhe ocorreu dizer foi -pelo menos o meu tirolês era autêntico- e desistiu. Mas, quando a banda começou a tocar Bandeira Branca e ele se dirigiu para a saída, tonto e amargurado, sentiu que alguém o pegava pela mão, virou-se e era ela. Era ela, meu Deus, puxando-o para o salão. Ela enlaçando-o com os dois braços para dançarem assim, ela dizendo -não vale, você cresceu mais do que eu- e encostando a cabeça no seu ombro. Ela encostando a cabeça no seu ombro.

***

Encontraram-se de novo 15 anos depois. Aliás, neste Carnaval. Por acaso, num aeroporto. Ela desembarcando, a caminho do interior, para visitar a mãe. Ele embarcando para encontrar os filhos no Rio. Ela disse -quase não reconheci você sem fantasias-. Ele custou a reconhecê-la. Ela estava gorda, nunca a reconheceria, muito menos de bailarina espanhola. A última coisa que ele lhe dissera fora -preciso te dizer uma coisa-, e ela dissera -no Carnaval que vem, no Carnaval que vem- e no Carnaval seguinte ela não aparecera, ela nunca mais aparecera. Explicou que o pai tinha sido transferido para outro estado, sabe como é, Banco do Brasil, e como ela não tinha o endereço dele, como não sabia nem o sobrenome dele e, mesmo, não teria onde tomar nota na fantasia de falsa bávara-

- O que você ia me dizer, no outro Carnaval? - perguntou ela.

- Esqueci - mentiu ele.

Trocaram informações. Os dois casaram, mas ele já se separou. Os filhos dele moram no Rio, com a mãe. Ela, o marido e a filha moram em Curitiba, o marido também é do Banco do Brasil- E a todas essas ele pensando: digo ou não digo que aquele foi o momento mais feliz da minha vida, Bandeira Branca, a cabeça dela no meu ombro, e que todo o resto da minha vida será apenas o resto da minha vida? E ela pensando: como é mesmo o nome dele? Péricles. Será Péricles? Ele: digo ou não digo que não cheguei mesmo inteiro aos 30, e que ainda tenho o leque? Ela: Petrarco. Pôncio. Ptolomeu.

(Luís Fernando Veríssimo, de verdade, não como aqueles que você recebe por email).

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Junho 19, 2006

Gabriel e Marina

Durante três anos, Gabriel e Marina se viram quase todos os dias. Ele ajudava o pai na banca de dia e se esforçava para terminar o ensino médio à noite, numa das escolas públicas da cidade. Ela estudava em período integral, tinha aulas de alemão, participava do coral. Ia ao colégio das freiras, estudava só com meninas e vestia saia nos joelhos como uniforme. Ele pensava que ela, riquinha e católica, nunca falaria com ele, um pé rapado sujo e sem modos. Ela achava que ele a via como uma filhinha de papai.

Era o começo do primeiro ano e Marina tinha acabado de entrar para o novo colégio. Não conhecia ninguém, então, depois da aula, ficava esperando sua mãe na calçada. Foi num desses dias que Gabriel a viu pela primeira vez. Ela lia um livro. Mais tarde, de tanto olhar com o canto do olho, ele descobriu ser "Romeu e Julieta" e foi pegá-lo na biblioteca pública. Três anos mais tarde, Gabriel diria ter sido um prenúncio.

Depois das férias de inverno, Marina já estava bem enturmada. A partir daí, Gabriel a viu passar por várias fases. Começou a fumar e andar com rapazes estranhos. Namorou um tal de Pacola, terminaram porque ele foi preso, morto ou pego com outra. Daí passou a se vestir bem, conversar com os meninos engomadinhos. Recebeu flores umas cinco vezes na sala de aula. Ia embora de carro importado com o namoradinho.

Nisso se passou um ano e o colégio promovia a típica festa junina. Gabriel e uns amigos passaram lá, ele criou coragem e mandou um bilhetinho pelo correio elegante, aproveitando que ela estava sozinha. Porém logo perdeu o ânimo e decidiu sumir dali, porque sabia que, por cinqüenta centavos, o carteiro lhe entregaria sem nem pensar duas vezes.

O resto do ano foi se arrastando com preguiça. Nenhuma mudança, nenhuma novidade na vida de Marina que Gabriel pudesse perceber à distância. Até que, faltando pouco mais de três semanas para as aulas acabarem, ela simplesmente sumiu. E ele passou os quase três meses de recesso pensando se algum dia veria Marina de novo.

Quando as aulas finalmente voltaram, Gabriel mal podia esconder a excitação de ver Marina e a tristeza de não. Somente no finzinho da tarde, quando já ia perdendo as esperanças, viu-a entre amigas. O cabelo estava um pouco mais claro. Nunca soube o motivo do seu sumiço, mas não faltavam teorias em sua cabeça.

De novo era junho, mas, esse ano, não era a festa junina que todos esperavam. Era a Copa. A cidade lentamente se vestia de verde e amarelo. Gabriel logo faria vinte anos. Na verdade, ele nunca tinha se interessado muito por futebol. Ainda. Mas a velha tevê de seu pai estava por lá e era impossível não deixá-la ligada nos jogos.

Ele lembra até hoje: era dia dezesseis de junho de 2002, quase seis horas da tarde. Marina vinha andando. Marina vinha andando em direção à banca! Ele tentou disfarçar olhando para o outro lado, vermelho até às orelhas. E perguntou:

- Um a um ainda, os dois jogos?

Gabriel se enrolou todo.Fingiu que não entendera a pergunta para ganhar tempo, mas a voz continuou embargada:

- Qu... aham.

- Puxa. Apostei que Senegal ia ganhar.

Mas ela gostava de futebol?!

- Hm, disse o rapaz muito prolixo.

- Droga, vou perder a prorrogação, tchau!

Deu-lhe as costas apressada, entrou no carro e foi para casa. Minutos depois, Senegal marcava o gol de ouro que o levaria para as quartas. Ah, o quanto ele ficou feliz! Ela veio falar com ele!!! Mais tarde, porém, em casa, Gabriel imaginava se isso voltaria a acontecer.

Vieram as férias e ele ficou sem saber. Onde será que ela assistira à final? Infelizmente, pouco depois conseguiu sua resposta. Ela nem olhava para a banca, nem dava um sorriso de alô quando passava por ali. E Gabriel concluiu que sonhou alto demais. Com o fim do ano, descobriu que ela passara em veterinária. A última vez que ele a viu ela usava uma trança comprida. O uniforme ainda era o mesmo, camisa pólo branca e saia azul nos joelhos. Nesse dia ela usava meias compridas (como as de futebol...) e tênis branco. Despedia-se dos amigos, entregava e recebia cartas. E foi-se.

Mais tarde, depois de fechar a banca, Gabriel foi comer um lanche. Afinal, era sexta. Passando em frente ao colégio, um papel no chão chamou sua atenção. Era o bilhete do correio elegante. Lá estava sua frase brega e sua letra mais caprichada. Envergonhado, rasgou o papel e foi embora decidido a deixar tudo para trás.

Junho 13, 2006

A história de Rodriga - Parte II


Num primeiro momento, Rodriga ficou desesperada e sem chão, literalmente. Por fim resolveu manter a calma, se recompôs e começou a bolar uma solução. Claro, sempre poderia esperar até que o vento a jogasse à terra, mas isto podia demorar e Rodriga, além de ser impaciente e imediatista, tinha caído num lado de difícil acesso e não estava disposta a aguardar uma "intervenção natural", como chamou.

Então resolveu pedir ajuda. Virou-se para a árvore ao seu lado:

- Ei! Ei! Ei! DONA ÁÁÁÁÁRVORE!

Como naquele momento a árvore estava dormindo, a voz de Rodriga não passava de um sussurro e a audição da velha planta não era lá essas coisas, demorou MUITO tempo até que o pontinho semi-transparente na fendinha da rocha fosse encontrado.

- Eu! Aqui na pedra! Aqui! Mais pra esquerda! Puxa, finalmente!

Então Rodriga explicou sua história para a Dona Árvore, não antes dessa relembrar seus tempos de semente, da seca que sobreviveu quando tinha meros quarenta anos de idade e como a paisagem ao redor vinha mudando desde os últimos tempos. Como sabem, as árvores nunca têm muita pressa. Depois de muito tempo, Rodriga pôde fazer a pergunta presa na sua garganta, com muita educação. "Sabe como é, Dona Árvore, eu gostaria muito de um dia ser um vegetal tão frondoso e copado como você, mas sou apenas uma semente de dente-de-leão... contudo, ainda assim eu gostaria de florescer e um dia ver minhas filhotas voando por aí com seus pára-quedas, mesmo que isso me custe os cabelos. Será que você não podia me dar uma folhadinha?" E por aí foi.

Bastantes minutos, histórias e lembranças depois (bastantes mesmo), Dona Árvore disse claro, sem problemas. Infelizmente, Dona Árvore já era idosa e sua flexibilidade não era como nos velhos tempos (mais histórias e lembranças). Mas bem, ela ia fazer o possível. Então esticou o seu galho mais novo e longo, e o galhinho mais comprido deste, na direção da pedra e de Rodriga. Tentou e tentou. E tentou. Tentou. Sabe como as árvores são. Mas não deu, quem sabe uns vinte anos antes... porém agora nada podia fazer.

Rodriga ficou desoladérrima, contudo, intimamente, sentiu que Dona Árvore sofreu mais por não ter podido ajudar e estava certa, pois, no outro dia de manhã, Árvore nada disse, mas sentiu dores musculares.

Junho 11, 2006

A história de Rodriga - Parte I

Era uma vez uma semente chamada Rodriga. Rodriga não era uma semente comum, era uma semente de dente-de-leão. Assim como suas colegas, Rodriga mal podia esperar o dia em que alguém lhe assoprasse para longe. Uma criança feliz, um casal apaixonado ou uma senhora bem arrumada, de sombrinha na mão, sonhava. E então ela voaria, voaria e cairia num lindo gramando verdejante, que seria aconchegante o suficiente para fazê-la florescer.

Numa fresca manhã de primavera, antes do orvalho secar por inteiro, o sonho de Rodriga se realizou. Foi uma criança pequena, com seus dois ou três anos, que arrancou a flor onde Rodriga estava e a soprou. Claro que crianças dessa idade ainda não sabem soprar direito, até babam nos seus próprios bolos de aniversário, mas por sorte uma corrente de ar passou por ali bem naquela hora, e só sobrou tempo para Rodriga se despedir rapidamente das amigas antes de se ver tomada por uma adrenalina imensa, planando no céu.

- Tchau, tchau!

Rodriga agora estava petrificada diante da imensidão do mundo a sua frente. Ah, petrificada não é a palavra correta, pois Rodriga era uma semente leve e flexível. Rodriga estava perplexa. Atônita. Estupefata. Agora sim, bem melhor. Rodriga apertava os olhos tentando enxergar na lonjura o seu sonhado campo. Depois de alguns minutos, foi à beira de um riacho, ao pé de uma frondosa árvore, que Rodriga decidiu aterrissar.

Bem em cima de uma pedra.