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Maio 20, 2006

Tudo certo

Ela chega em casa tarde, tira as botas antes de entrar. Roda a chave silenciosamente, mas a porta range. O chão de madeira da sala abafa os passos. Deixa a bolsa, os sapatos e a chave em cima da mesa e vai para o quarto escuro. Ele tem sono leve, acorda e só fica olhando. As luzes estão apagadas enquanto ela troca de roupa. Está frio, ela tira o casaco, a blusa de lã, a camiseta. Fica só de calcinha e meias procurando pelo pijama. Sua pele está arrepiada. Depois de vestida, vai para a cozinha.

Ele ouve o microondas e sabe que ela vai tomar um leite morno e provavelmente pegar a bolsa de água quente. Aquela friorenta. Talvez depois leia um livro ou assista nada na tevê, só para não ter de enfrentar os pensamentos. Ela tem insônia. E quando tiver sono, dormirá doze horas. Só para não ter que enfrentar os pensamentos. Quanto mais eu durmo, mais eu sonho, diz.

Ela o ama muito. Enquanto pega uma xícara, imagina onde as coisas perderam o rumo. Éramos tão felizes... Ela tem uma teoria: quase não se vêem, quase não conversam. No fim de semana, ele vai jogar bola, trabalhar no escritório. Ela vai para a casa da mãe. Só para não terem de enfrentar um ao outro...

Ela toma o leite a goles pequenos na varanda, embrulhada no roupão que ele lhe dera alguns anos atrás. Venta muito e ela imagina onde está Karenin, o gato arisco que vive a tomar sol no telhado do vizinho. Já não o vê há alguns dias. Ele nem imagina, mas ela tem um carinho especial por esse gato de ninguém. Lembra-a de outros tempos e por isso o chamou assim. Ela sempre deu grande importância aos detalhes.

Ele ainda não dormiu. Meu Deus, o que eu faço? Quer falar que essa situação tem que mudar. Certo, é agora. Levanta rápido da cama, decidido, mas tem pouco tempo até que mude de idéia. Onde ela está? O chão frio e ele sempre sem chinelo. Como ela implicava com isso... Ele gosta da lembrança e sorri nostálgico. Vai até a cozinha e acende a luz: ninguém. Aquele sentimento de vazio o invade, ele se volta ao corredor e finalmente vê o perfil dela na varanda. A casa não é muito grande.

Ele anda devagar. Ela esquenta as mãos na xícara. Ele já não se importa, já não pensa, só quer chegar lá. Os passos se aceleram, ela deixa o leite no parapeito e olha para trás. Sem dizer nada, ele a abraça forte. Forte. Ela mal consegue respirar, mas se sente feliz e protegida. Ele sente as lágrimas dela no pescoço, penteia seus cabelos com os dedos.

"Está tudo certo". Sempre.

Maio 08, 2006

A palavra é prata, o silêncio é ouro*.


Minha vizinha de baixo ouve umas músicas tão batidonas que parece que o tempo está se repetindo. E claro, ela ouve ALTO. Bem alto. É uma tarde tranqüila e quando menos se espera começa: TUM, TUM, TUM, TUM, TUM... No começo, ainda pairava uma dúvida se era realmente uma música ou se alguém estava a martelar. Assim como eu nunca sei se é o mimadinho do segundo andar fazendo manha ou só um gato de rua escandaloso. Quando você acha que o mundo não vai suportar a pressão de repetir aquele espaço de tempo mais uma vez, a canção muda: TUM TI, TUM TI, TUM TI, TUM TI... Ufa, pelo menos um período maior.

Essa idéia me lembra muito aquela matéria de física do colegial, sobre comprimento das ondas. Infelizmente (ou não), as poucas coisas que ainda sei sobre física são Vm=D/T e conversão da temperatura em diferentes escalas. Essa coisa de comprimento não tá com nada. Cool é cumprimento, inadimplemento, indivisibilidade, solidariedade. E enquanto eu estudava todas essas coisas bacanas para a prova de hoje, a moça de baixo me torturava. É realmente uma pena que eu sempre acorde atrasada e que essa idéia só me tenha ocorrido agora, mas hoje eu deveria ter acordado, posto um salto gigantesco e dançado sapateado. O meu sapateado. Aí ela ia gostar!

Depois de outra era interminável, começam aquelas melodiazinhas. Para essas eu não tenho onomatopéia à altura, um dó. Mas olha, vou lhes falar uma coisa: quando aquela meretriz desliga a porra do rádio, é "orgástrico", como diria um colega de sala bêbado. O mesmo que, jogando Stop, pôs, em fruta com letra O, ortelã, sóbrio. Todas aquelas civilizações milenares com seus provérbios sobre o silêncio estavam certas. Este é um típico caso no qual a história do bode se aplica. Pena que não sou digna de contá-la...

* Esse é judaico.